Sem sentido, sem direcção, sem caminho, estou eu sentado numa singela cadeira, contemplando um horizonte pintado pelas cores de um Outono antecipado, aquele que se espanta no meu intimo mais profundo. As minhas pernas parecem ser a estatização da vida, empragnadas no árido chão que me sustenta, sem se moverem, sem quererem mover-se. Quero apenas que o tempo me apague do seu quadro, e me isole no seu esquecimento. O meu desejo é tão intenso que os meus olhos secaram no seu próprio sofrimento, e a minha boca parece soltar gritos de um desespero anulado.
Mas no devaste de meu corpo, meus olhos visionaram uma ilusão aparente, sentindo o meu coração revelar-se num batimento estonteante, e o sangue deixou de ser viscoso e flúi pelos vasos regenerando uma alma escondida numa solidão inóspita. O mundo passou a desenhar-se de verde, amarelos, cores fortes e alegres. A vida voltou, pensei, mas como seria possível, afinal era apenas mais um ser que se cruzava no meu olhar, e tantos outros o fizeram, mas sem terem esse certo poder ilusionista de me despertar o fogo que ardentemente, mas gostosamente, clama dentro de mim. Olho-a nos olhos, e sinto que a esperança não morre nos nossos desgostos, que o acreditar não desvanece nos nossos tormentos, que a paixão não se apaga nos nossos medos e que afinal o poder de amar não se enterra na escuridão da nossa desilusão.
Digo-vos que me enterneci em seu olhar, que me apaixonei pelo seu sorriso, pelo seu tocar, pela voz que me adocica o ouvido, que acarinhei o andar, que amei a irreverência de ser normal, que amo a força de se ser especial, posso revelar que agora sinto que afinal a vida revelou-se pelo caminho do amor, pela estrada de sentimentos intrínsecos à felicidade, e que eu desejo percorrê-la, correr para que no todo sempre possa viver cada momento junto a essa gladiadora de tempos modernos, um amor de uma linguagem própria, só nossa, um mundo que evolui a nosso lado, um universo que se cria em nosso redor, sermos o centro de nossas vidas, juntos, lado a lado, pois somos iguais, pois somos amados e amamos.
Para ela, para ti, de nome bíblico, de nome endeusado, te escrevo com todo o coração apaixonado, amado e cheio de amor para te oferecer….para ti, Lica, para ti, minha doce Raquel.
“ O sentir está em todo o lado
É como um lábio trincado, uma língua que nos arrepia o beijo
É coração que corre pelos campos do amor.
Escrevo esta página que tem muita alma dentro,
Que tem a substância de uma montanha de paixão
Que ascende o longo fogo da linhagem de te amar.
Raramente os palácios de quem sente se elevam nas planícies de teu olhar
Mas sinto que o planalto deste meu sentimento altivo alcança teu coração.
Muitas vezes os nomes não são apenas nomes
São curas para as feridas que nos infligem em guerras passadas
Muitas vezes as maiúsculas que nos chamam não são apenas letras
São a água que apaga as cinzas do desesperante estado de sofrer
Por vezes as minúsculas não apenas pequenas
São a fonte da solução do sentimento do nosso coração.
E Raquel, tens tudo em ti, que em mim semeaste
Tens um fruto que brota em meu corpo,
Um sol que já brilha em minha alma.
Doce mulher, de corpo reluzente,
Vem e fica, deitada junto ao meu leito,
Deixa-me acarinhar teus olhos de fundo equilibrado
Deixa-me ser terno para tuas mãos silvestres
Quero construir a ponte para o futuro na indústria de tua vida
Quero incendiar nossos passados
E queimá-los junto ao túmulo das nossas angústias.
Quero emoldurar todos os momentos no fotograma das nossas almas.
Assim, mulher, minha doce e carinhosa mulher,
Assim a vida se revelou em ti,
Assim o amor se revelou para mim, por ti!”
Para quem me trouxe o simples sentimento de amar. Para ti Raquel.

1 comentário:
O amor tem coisas estranhas, sofridas, mas tem tambem coisas lindas, de uma beleza inagualável, e acho que a Raquel encontrou a beleza em vez do sofrimento...permitam-me que em mim neste momento viva um pouco de inveja...felicidades.
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