“ No princípio foi o sonho, como em todo o princípio.
No final será o sonho, como em todo o final.
Quem tece sentimentos de paciência e respeito
Será recompensado com o conhecimento,
Com a sabedoria, a sorte e a verdade.”
In Cartas do Inferno, Ramon Sampedro.
Por vezes somos confrontados com acontecimentos nas nossas simples vidas que nos deixam a reflectir, pensando e interrogando-nos se esses momentos terão alguma explicação possível. Muitos chamam-lhes coincidências, que no dicionário “acto ou feito de coincidir, acaso…”, e que na sabedoria popular lhe designam como “pequenos milagres de Deus para mostrar a verdade”. Mas há outros que dizem que estes acontecimentos estranhos são sinais, que no dicionário “tudo que representa ou faz lembrar uma coisa, um facto, pessoa, fenómeno passado, presente ou futuro”.
Bem, sabemos que não podemos depender as nossas vidas da procura de coincidências ou sinais para projectarmos os nossos momentos ou futuros, mas devemos parar para pensar que por vezes com maior ou menor frequência, acontece-nos a todos tropeçar em alguma coisa ou alguém que nos obriga a parar e a pensar, e isso não acontece no acaso ou como um fruto de um qualquer milagre, surge sim pelo que pode representar, significar, tendo em vista o que nós vivemos num passado recente ou longínquo, tendo em conta que aquele encontro, cruzamento, mexe com o nosso interior, com a nossa arvore.
Os acontecimentos à nossa volta, as circunstâncias específicas de cada um, a vida vivida (e quase nunca sonhada) e aquilo que não entendemos levam-nos a fazer perguntas a nós próprios. A tentar perceber, a encontrar um sentido, a avaliar e a medir.
Muitas vezes tentamos desesperadamente, ou mesmo porque nos convém naquele momento, traçar uma rota que contorne esse acontecimento. Ir ao fundo de si mesmo nunca foi um caminho fácil nem linear e, por isso, instintivamente evitamos algumas direcções e preferimos certos atalhos. Temos tanta coisa mal arrumada dentro de nós que a tentação de evitar caminhos é banal e universal. Ou seja, todos sabemos do que se trata.
Acontece que nem sempre “ir á volta” da situação, contornar por hipotéticos caminhos mais facilitados, assobiar ou colocar um ar de quem não vê o que se passa, nem escutar o que estamos a ouvir, será o caminho mais fácil, decididamente.
Alguém um dia disse que “deixar-se amar é aquilo a que todos resistimos mais ao longo da nossa vida” e, de facto, deixarmo-nos amar é de certa forma incómodo. Podemos sofrer com esse amor, podemos achar que não estamos à altura de responder aos seus desafios, podemos sentir posse e ciúmes e podemos ter a angústia de o vir a perder. E para quem, como nós, coo habita com tantos medos e aflições, e, insisto, tantas coisas por arrumar cá dentro, esses e outros riscos são um preço demasiado elevado para pagar pelo amor. Ou não. Tudo depende do preço que cada um está disposto a pagar por aquilo que é verdadeiramente essencial para o nosso viver, aquilo que afinal é o sentimento mais nobre e perfeito que podemos viver. Mas estes medos, receios, depois cegam-nos, e não nos deixam ver a realidade, nem nos deixam perceber o que nos vai acontecendo, até ao momento que somos confrontados com acontecimentos que verdadeiramente nos fazem pensar …e pensamos, como é que?....será que é uma coincidência, ou será um sinal?....mas sinal de quê?....eu nem sei os ler?.....mas coincidências não existem, ou existem?....será mesmo apenas obra do acaso, ou será apenas aquilo que os nossos olhos querem ver?.... Ou será apenas a vida e nada mais?....
Tantas as questões, tantas as interrogações que colocamos com tanta facilidade que nem damos conta que não são os nossos olhos que vêem o que queremos ver, mas sim a fuga à verdade que facilmente nos cria uma carapaça de virtualidades, que em vários momentos nos dão jeito, de forma a despistarmos alguém, algo, ou mesmo a desviar-nos daquilo que a vida nos quer mostrar, que tudo está dentro de nós mesmos, as respostas, as vontades, os incentivos, o querer, os sentimentos, o amor, a coragem….
Deixo-vos com um poema e depois escreverei nos próximos dias dois contos relacionados com este tema para reflectirem, ou apenas lerem e seguirem, bem-haja a todos os que me lêem, bem-haja a todos os que me criticam, bem-haja a todos os que me aturam, bem-haja a todos os que me sorriem, bem-haja a todos os que me amam, bem-haja aos que me odeiam, bem-haja aos que me ignoram, bem-haja a todos que simplesmente vivem…. Vocês são o sinal máximo, a coincidência viva de que estou cá, VIVO!!...Bem-haja À VIDA!!!!....Bem-haja ao AMOR!!!!
“ Passou o vento, passou o dia,
Passou a noite e a manhã,
Passou o tempo, passou a gente,
Passou cada hora de amanhã;
Passou um canto esquecido
Nos cantos de cada passo,
Passou ao dizer que passo
Sem se lembrar do compasso;
Passou a vida como se nada
Fosse,
Só passou e foi-se embora,
Passou à pressa, sem demora,
E passou tudo a quem ficou;
E se mais não passou
No fim de tudo ter passado,
Foi porque algo se passou
No último passo que foi dado.”
Nuno Júdice.

1 comentário:
Gosto de estar aqui e falar do que sinto.Não sei se serei ouvido, se serei entendido,mas preciso falar.Deixo aqui a minha declaração, que a quem é endereçado,talvez nem venha a ler ou talvez ignore. Não posso prometer o futuro , pois não o tenho,mas prometo o meu presente , com os meus erros e acertos e com a certeza de que tenho tentado e tento recomeçar a cada dia: é assim que para mim os amor se torna eterno
SONETO DE FIDELIDADE
De tudo,ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento
Quero vive-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão,fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor(que tive)
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure
( V. de Moraes)
Enviar um comentário