As horas pararam no momento da chegada. Não reparamos mais se os ponteiros se moviam. Aquele instante foi a leve sensação de o tempo depender todo de nós, e não nós dele. O sol parecia querer escrever no raiado céu azul uma manhã friamente sólida. Mas os bafos de um calor divino saiam-nos da alma e transpiravam o ar que se elevava nas montanhas. A vila pintava-se de barracas, vendas nomadas, de gentes que saiam por entre portas vadias nos sentimentos, nas cores, mas alegres nas vidas. As ruas eram estreitas, de quelhas quadradas, esquinas que escondiam promenores de cultura ancestral.
Nas nossas costas elevavam-se os montes imponentes, reino de neves virgens, de solos ferteis na divindade natural, montes que abraçavam a vila e a aconchegavam num postal de rara intensidade e harmonia.
O carro havia já ficado estacionado e as suas rodas foram substituidas por passos ansiosos de uma natureza pura e despida de uma humanidade devastadora. Sentiamos que a nossa casa estava ali, entre nós, entre as arvores que nos protegiam e nos jogavam num leito de uma terna melodia de amores inspirados em ninfas assustadoramente perfeitas. As palavras foram trocadas por um silencio altamente comunicador. Falavamos sem utilizar os sons, comunicavamos sem usarmos os ruidos que as nossas bocas haviam selado. Caminhamos pé ante pé, e sentiamos cada vez mais que haviamos sido chamados ali, naquele lugar de inóspita beleza, um local de divindade, onde apenas os pés mais idolutráveis poderiam pisar. Os nossos olhos jogavam um jogo de palmilhar todo o horizonte que havia sido pintado pelas mais puras cores, as mais suaves tonalidades. Senti por momentos uma leve brisa no rosto, alguém queria cantar-me uma bela melodia, o fresco esbatia-se na pele e rasgava-a de ternura, colocando um sorriso na minha alma. Existem momentos na vida que devemos seguir quem nos chama, quem de onde não vimos mas sentimos nos apelar à nossa ida, ao irmos de encontro com o nosso destino. E nós fomos.
O rio soletrava todas as pedras que o compunham, descendo levemente um vale de encantos unicos. Encontramos casas, pessoas, ruas, todas elas pareciam habitar num paraiso desconhecido, pareciam viver na mais perfeita das ignorancias, longe de um mundo hostil. Vimos arvores e levadas, água de pureza serrana, vimos animais, um cão que docemente se oferecia aos encantos dos nosso mimos, vimos um gato que vadiamente se jogava num mundo selvagem, sem o preceito de viver humanamente preso em habitações mundanas. Vimos tanto que todas as frases que eu escreva não chegavam para contar e descrever tudo o que os nossos olhos fotografaram no rolo da nossa alma. Mas isto é só para os previligiados, sim para aqueles que procuram o previlégio de sentir e viverem um chamamento destes.
" Vieste na madrugada
Vinhas de leves passos
Vinhas de doces caminhadas
Pintada num manto esbranquicado
Vinhas suavemente molhada
Mas no calor humano
Te aconchegaste minha amada.
És a leve brisa do outono,
A forte nevada do inverno,
És o verdume da primavera
E o calor do Verão.
Mas és, minha amada, o perfume
Do meu corpo, do meu pão."

4 comentários:
Doce e envolvente, Beijo
Fomos entrando noutra dimensão, noutro tempo. Os nossos corpos eram projecções desta realidade...mas os nossos sentidos já cá não estavam. Demos vida ao Tempo !
Foram para lá, e vieram para cá…
A aurora deu-lhes forças, e esperanças.
O sol acompanhou-os, e só o vento lhes tentava fazer frente, mas vã tentativas, nada os demovia.
Para lá ela a temível ficava pelas costas, para cá mesmo á sua frente a imponente dormia.
O entardecer apressava-os e na tentativa de o superar foram enganados pelas artimanhas que a temível escondia.
Voltaram para trás, não vencidos mas para vencerem.
A noite esperava-os e depressa ficaram companheiros.
De repente o final…O sabor de vitória. Cada um com o seu silencio…
Mas…
Era tão grande o silêncio que o ruído ecoou… e então a temível acordou.
E a montanha cheia de neve rugiu
-Quem anda aí, caralho!....
E eles pelo tamanho respeito que sempre tiverem quer para lá quer para cá, em seu silêncio ficaram, pensando que um dia não ficariam pelos seus pés e lhe olhariam bem nos olhos e talvez afagar o seu penteado. Nada retorquiram.
E a montanha curiosa de saber quem andava ali, lá abriu um olho e depois de ver pensou
-Há são eles, simplesmente eles….
E depois voltou a adormecer.
Cuidado, eles andam aí!...
Enviar um comentário