"(...) E se Deus existisse? Como é que seria ele? A sua fisionomia? O seu olhar? O sorriso? A cor dos cabelos? Como seria se ele viesse até nós, agora, e se sentasse a esta mesa e começasse a conversar connosco, soltando palavras que nos soariam a sabedorias, letras mágicas que nos adormeceriam sob um ilusionismo espiritual? Como seria se depois lhe pedíssemos para curar estas nossas maleitas infernais, que nos livrasse deste medo assustador da morte, esse destino impetuoso que teima em nos atormentar? Será que ele nos olharia com a serenidade divina e nos explicaria que tudo isto é apenas uma passagem para algo ainda melhor, para a verdadeira vida, como se tudo isto a que chamamos vida não passa de uma fase em que temos de descobrir uma qualquer espécie de chave, merecida, para podermos então abrir a porta desse tão apelativo lugar aclamado por paraíso? Ou será que ele nos diria que temos de aproveitar enquanto por aqui andamos, pois depois de nos apagarmos mais nada iremos sentir, que tudo será uma escuridão absoluta e que a mentira é constituída pela falsa promessa da ressurreição da alma? Será que Deus nos diria que ele próprio é uma criação da imaginação das pessoas, que ele próprio não existe enquanto ser, é apenas uma energia que percorre os cantos e recantos da natureza, sendo parte integrante dela mesmo? E se Deus fosse apenas o nome de um enfermeiro que se aproxima de nós e nos questiona se desejamos algo para estas dores infernais, algum medicamento para nos iludir o pensamento e enganar o nosso corpo? E se Deus seja apenas uma ficção da sociedade para explicar a sua própria imperfeição?" - Pausou para um golpe de água, que o refrescou e continuou - " E se Deus existisse e nos fixasse nos olhos e nos dissesse que nunca tinha tido nenhum filho, e que tudo era a invenção do Homem enquanto Ser, porque não suportava a existência de alguém superior a si mesmo? E se Deus existisse e nos jogasse na merda de um caldeirão de fogo e nos cozinhasse a todos até sermos consumidos pelo ardor das nossas acções, acabando de vez com toda a escória que é esta Humanidade?"- voltou a pausar, para fixar os olhos no tampo da mesa. Estava devastado por si mesmo, a doença tinha-lhe corrompido o espírito e não aguentava a dor que lhe devassava a alma. Voltou-se de novo para Rui e disse - " Deus é apenas um sentimento. Simplesmente um sentir. E é isso que faz dele grandioso... e nós teimamos em não ver isso, por isso andamos em busca dele como que de um tesouro da salvação se tratasse...ele é um tesouro, mas que vive dentro de todos nós, só o temos de sentir e veremos afinal se ele existe ou não..."- estava estafado. Tinha de descansar. Levantou-se e percorreu o corredor com a angústia de uma impotência sem limites que o empurrava cada vez mais para o portão, a portagem onde o esperavam ansiosamente para o libertar. Deitou-se, e com as lágrimas a lavarem-lhe o rosto, apertou contra o peito as mãos, chorando compulsivamente, recordando o momento em que Luísa o abraçou pela primeira vez, que o beijou carinhosamente, que o amou inconfundivelmente. E sentiu Deus, afinal era mesmo apenas um sentimento, pensava ele.in " Os Senhores da Vida e da Morte" de Carlos Almeida.

2 comentários:
Uff! Finalmente mais! Estava com receio que a fonte tivesse secado.E desta vez, pelo que li, bastante melhor que da primeira. Abraço F.
Ena!... E quem é esse Carlos Almeida?!... Deus existe, quanto mais não seja porque qualquer Homem precisa de alguém em quem se apoiar, nos bons e até nos maus momentos. Não chega a familia, os amigos, ou até as coisas, tem de haver sempre alguém, ou uma crença que alimente o nosso ego. Mas esse Deus tem de existir mesmo porque tem feito muita gente falar Dele, uns bem e outros muito mal... como Ele não faz mal a ninguém, pelo menos deliberadamente, todos deveriam respeita-Lo mais, mas não! Mas é curioso como Ele continua a ser Grande... Eu acredito e quero continuar a acreditar.
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