quinta-feira, abril 07, 2005

Poesia apenas....

O DESEJO

Ainda te esmaga o desejo daquele anjo teu,
Encarnado, reencarnado na tua matéria,
E perguntando, com os olhos trágicos,
De olhar consciente e boca entreaberta,
«Ó Senhor, inerte estará o meu sonho?
Minha vontade? Morta estarão minhas promessas
Minhas atribulações silenciosas
Que me enlaçam nesta teia trágica da demora?»

Lia-se em teus olhos um assombro,
Que de além-braço se aninhava, mar de pena,
Angélica mensagem do fatídico,
Mas numa alva se apagou, como se apaga o fogo
De uma nebulosa daquele céu ostensivo renasceu
Porventura ao mais belo uivo Deus respondeu
Interpelado pelos desejos recônditos de uma descendente de Eva
«Agora e aqui te peço,
da minha voz toda a voz soa a eco,
se esta prisão para ti termina em beco
não fiques em triste solidão,
hás-de nascer até chegar o dia,
em que do teu espelho,
o espelho do teu desejo viverá!»

Que me dizes, santa, com o teu sussurro? Diz-me!
Choras ou ris? Passaste no escuto divino
Do eterno rosário que sempre aumentas,
Da tua ânsia de sonhares, que em teu peito se oprime,
Tua infinda oração canto foi sublime,
Trazes a fé, e em horas lentas
Trilhas a tua alma e logo aventas
Um grão que se semeia na brisa do teu ventre.






MULHER

Em que pensas tu, mulher, perfeita feita?
Porque esse véu de noite cerrada
De tua farta cabeleira negra
De nazareno cai sobre a tua fronte?
Olha dentro de ti, onde és reino,
Onde alvorece o sol eternal das almas vivas,
Onde tua beleza empalidece a luz do dia,
Onde és calma perfeita,
Onde as palavras sopram a divindade absoluta.

És primavera, doce e bela primavera,
Rainha dos tempos floridos de todas as coisas,
Em ti o frio não corta, o calor não fere,
Em ti as aves cantam horas a fio,
E entoam com brio, pio, pio, chilro, chichirrobio.
No teu corpo os campos que as margaridas beijam
Exalam docemente os odores celestiais da tua frescura.
A tua glória desenha um sonho,
Que foi outrora um arco-íris,
Que na ternura da tua lua se deitou,
E em seu leito se dissipou, abençoado
Pela plenitude do teu infinito brilho jovial.

Ó criatura abençoada, ouve o teu chamamento,
Pois os céus convosco se riem em teu Jubileu,
Teu coração está celebrizado em tua festa.
Em tua cabeça as grinaldas saltitam,
Na plenitude da vossa alegria,
Ó filha da alegria, de amores-perfeitos,
Nasceste de um sono, por vezes esquecido,
Mas de tua alma rompeu a estrela,
Contemplada pelos firmamentos,
Fluiu, moldada, pelos corredores imortais
Da tua arrebatada existência.

Nem Homem, nem Ser,
Nem tudo o que se encontra em animosidade com alegria,
Pode completamente abolir-se ou destruir-te!
Por isso em estação de tempos calmos
A tua alma avistará aquele mar imortal
Que te trouxe para aqui, e podes viajar num instante até lá,
Onde as nuvens se reúnem em teu redor,
E tomam a coloração sóbria do teu olhar
Que ficou à guarda da imortalidade humana.
Graças ao teu coração humano por via da qual vivemos,
Graças à tua ternura, às tuas alegrias e medos,
Em nós a mais pequena flor germinando pode gerar
Pensamentos belos, frequentemente altivos,
Onde nem as lágrimas podem chegar.





DITOSA

Vinde, bela gaivota, vinde, em paz e todas as minhas forças desafiai,
Retirai essa faixa, brilhante como a dos céus,
Que circunda um mundo muito belo.
Despertai esse corpete cintilante que usais,
Para que aí os olhos dos que se totalmente afadigam se detenham.
Desenlaçai-vos, pois tal melodia harmoniosa
Me revela que esta hora é a hora para ir para teu leito.
Retirai essas afortunadas asas de espartilho, que invejo,
Pois imóvel consegues ficar, permanecendo tão perto.
O vosso vestido de penas encantadas, deixa-vos numa beleza revelada
Como os prados floridos, abençoam um paraíso celeste.
Recebido de vós estão os anjos,
Que tocam harpas melódicas, que facilmente amaciam os ouvidos mais espartanos.
Libertinamente tocais o tecto, o sublime alto do infinito,
Forma pura de elevação, revelada pela inocência de suas cores.
Teu peito rasga de brilhante os suspiros daqueles
Que resplandecem sob a copiosa forma de amarem.
Voas, suave, lembrando as doces nuvens que se enchem os dias.
Floreces numa primavera de correntes risonhas,
Deixando-me a visão incandescente na nobre figura da perfeição.

1 comentário:

Marta disse...

O amor faz destas coisas... belas, Beijo