"Caro Mundo,
Chamo-me Isabela. Tenho dois filhos deitados em suas camas, o André e o Tomás, e um marido, Filipe de seu nome, encaixilhado numa foto em cima da minha secretária. Há dois dias atrás eu despi o Filipe de suas vestes e deitei-o, com o sopro de um beijo, numa cama eterna. Mas não fora eu quem o adormeci. Não me recordo de ter cantado nenhuma canção suavizante e com o brilho de um sono profundo, nem me recordo de a ter encomendado. Tenho a certeza de uma luta por um amor longo e duradoiro. Mas o mundo decidiu que ele devia ser abalado por circunstâncias alheias ao seu era, à sua vida, às suas convicções. O mundo achou que ele devia ser escolhido para estar no momento errado, na hora errada, só porque ele se dirigia para um trabalho que sustentava uma família unida pelos valores do amor, da paixão, da compreensão pelos outros, do total respeito pelos outros e suas formas de estar e viver. Mas afinal mundo, não entendo porque é que escolheram entre muitos o meu marido. Nunca tive conhecimento de que ele gostaria de participar nesta carnificina que foi o 11 de Março.
No funeral estava só, apenas contemplava um caixão fechado pelo ódio de povos ancestralmente opostos. Mas, questiono o mundo, será que essas divisões horrendas abrangiam inocentes? Uma senhora chorava noutro ponto do cemitério por um filho e por uma nora. Casados de fresco, felizes de repente e de repente jogados no nada, no fundo de um buraco escuro e sem sentimentos. Será que a felicidade deste casal, mundo, incomodava assim tanto que eles não puderam nem respirar um pouco mais os doces momentos do amor? No dia de reconhecimento do corpo de Filipe, cruzei-me com uma pobre mulher que procurava sua filha, seu neto e seu genro. Todos padeciam em sacos frios num dos muitos cantos do demasiadamente enorme pavilhão que albergava os corpos. Ela, rasgando sua camisola gritava a dor de uma perda sem retorno. “ Eles só queriam andar uma vez de comboio”, gritava. Mas, mundo, será que o sonho de uma pobre família, que depois descobri, até vivia em condições algo desumanas, era inimigos a abater?
Muitas outras pessoas eu fui encontrando e muitas outras histórias fui escutando.Algumas pareciam contos de fadas malditas, como a de um rapaz que buscou por todos os hospitais da cidade o corpo inerte de sua amada, gritando nas câmeras da TV pelo nome de Júlia, ou mesmo aquela mulher que telefonou para um dos muitos canais da rádio a contar que o seu ex-marido padecia sepultado nos carris da desgraça.
Um dos primeiros a chegar após o momento da morte, foi um senhor que conheci, chamado Heitor, que deparou-se, segundo ele, com vidas, sonhos, ambições, projectos completamente devastados. Contou-me que quando encontrou Filipe ele estava estendido sob os carris, agarrado a uma mala. Os seus olhos eram cerrados no vazio do espaço. Não quis ouvir o resto da descrição. Quero ter a certeza de que Filipe se encontrava a pensar em nós.
Lembro-me de o dia em que demos o primeiro beijo. Foi tudo perfeito. Mesmo a comida, que eu não gostava, parecia naquele momento um banquete. Sabes, mundo, tu não me tiraste o Filipe, pois ele é eterno em mim, nos seus filhos, nos seus amigos. Eu amo o Filipe. Sempre o amei. Eu amo o seu suor, o seu odor, a sua saliva, a sua febre, as suas zangas, eu amo as suas risadas, as suas alegrias, tristezas, ou mesmo os seus nadas, eu amo o seu andar, caminhar, os seus passos, eu amo a forma como se sentava, como dormia, como comia, como falava, eu amo o corpo, a alma, a memória, as fotos, as recordações. Eu amo o meu marido Filipe, mundo, e esse amor tu não consegues, por mais guerras que faças, acabar com ele. Este amor é que nos torna eternos. E o Filipe é amado por mim como pelos dois filhos.
Mundo, espero que esta carta sirva para reflectires sobre o que se passa em ti, no teu ventre, nas entranhas mais profundas do teu sistema. Existem sentimentos que são opostos : o Amor não é ódio, e odiar não é amar. Quem ama recebe amor, quem odeia recebe solidão, fica só, sem nada para receber, sem ninguém para partilhar.
Até um dia mundo... e o tempo não parou, apenas estagnou por momentos, mas voltou a caminhar, e nós os inocentes mundo não nos calamos, queremos ser felizes e buscamos essa felicidade, aconteça o que acontecer, seremos eternos...lutadores da paz.
Cidade Grande,
Três dias após o 11-M.
Isabela."
in 11-M, carlos almeida
