sexta-feira, fevereiro 11, 2005

A Vida é um Ópio...de Tango

A chegada fora algo turbulenta, posso dizer mesmo agitada em demasia para o normal, mas a esperança de encontrar o local era enorme e ultrapassava todos os medos que ainda pudessem existir dentro de mim. Chovia cupiosamente, mas parecia ser uma benção de chegada, um qualquer tipo de ritual divino para abençoar sabiamente aqueles que travaram lutas intensas contra rumos e marés a fim de chegarem ao destino onde a perfeição teria passado e Deus, esse ser construtor tinha nascido. O autocarro não demorou a partir, e estrada fora, noite dentro, fizemos um percurso vazio, molhado e pintado por uma dura sonolência, derivada por horas de empacotamento aéreo, necessário e valioso, pois isto da modernidade e progresso tem virtudes de enaltecer, como o facto de podermos chegar mais longe e mais depressa. Mas voltando, o Hotel era central, algo cosmopolita, comodo o bastante para me sentir ainda mais bem-vindo. Lá fora uma melancolia parecia esbater-se no meu olhar, com pingas de água que lavavam ruas desertas de medos e cheias de aromas sensuais. Senti-me emoldurado pela magica sensação de estar num rodeio de músicas harmoniosas, aspirantes a danças de exotismos fascinantes, senti estar em casa, senti o silêncio desses locais divinos em que o nosso mais profundo intimo nos diz que :"Agora podes descansar, estás a salvo."
A Metrópole é de uma dimensão intocável, lava-se todos os dias num banho de prata castanha, acorda todas as manhãs envolta de uma magnetismo exótico, é uma cidade de estados, de fronteiras, de culturas impares, sente-se os odores humedecidos pela agreste diferença do social, sente-se o agitar melódico de uma sociedade em viragens abruptas. Entrei numa igreija, esse local de culto religioso, muito limpa nas suas imagens, muito rica no seu intimo. Reparei num homem que descansava num dos muitos bancos corridos, deitando a cabeça numa toalha sob o encosto do cadeirão da frente, parecendo qual guerreiro da liberdade que por fim repousa das imensas batalhas por uma conquista quase sempre utópica, quase sempre infindável. Havia um túmulo, de D.José de San Martin, nobre Homem que lutou pela libertação de um povo, de uma nação, e agora repousa sob o olhar por vezes inculto, mas sempre sereno de quem passa, que sua alma se mantenha na paz do seu sossego. Subi e desci ruas planas, de imagens peronistas, de Evas coragosas, sentindo em cada passo da dança um movimento da sensual forma de cortejar a liberdade.
A viagem corre pelos ponteiros de um relógio que parece não querer parar, que parece não esquecer-se de nós, e a noite já nos amordaçou nessa sua escuridão de leitos tristonhos. Estou sentado em frente a um prato de guloseima carnal, com um copo de um liquido de Deuses afamados, com que me delicio pelo seu perfume aromático e pelo seu aveludado corpo. Sinto-me num algures manjar de Reis obstinados pelo ócio de vicios abençoados.
Dias já passaram e os meus olhos parecem não ter capacidade rigida de guardar em sua memória tantas visões idoletradas pelo Olimpo mais divino. Estou num local, um desses muitos locais que eu entitulo de "Sagrados Templos Naturais", onde estou no meu berço, sentindo-me um reçem-nascido mimado pelos postais emblemáticos e mágicos do que me rodeia. Bariloche. Para muitos um local desconhecido, para outros um local de grandes cultos. Patagónia. Nahuel Huapi. Che Guevara. Sim, lembro-me de nas lembranças que Che escreveu sobre uma viagem de moto que realizou em busca dessa sabedoria humana e natural, descreveu este local, as cores, os odores... De Bariloche falo dos lagos de cores preciosas , dos montes pintados por uma imensidão infinita, das arvores que sabiamente resisitem durante séculos, falo da vida inóspita que encontrei em todos os locais, em tudo em que toquei, em tudo o que a vista alcançou. O barco cortava a cristalina água glaciar, enquanto esbatia-se no meu dorso uma leve brisa de sabores quentes, mas serenos. Sentia o corpo escaldado por uma força de almas que vagueam por este local. Parecia escutar no meu silêncio vozes que dançavam pelo leito do lago, como que num bailado orquestado pela sinfonica melodia do quadro natural que se emoldurava na minha frente. Uma prática oriental, Tai-Chi, dize-nos que devemos é saber viver ao máximo o presente, pois é a diferença de se alcançar o Ser Único, a diferença entre estarmos entre o céu e a terra....pois digo-vos agora quis mesmo ser único, viver este presente foi mesmo ser eterno.
Mas o final pareçe aproximar-se galopante e sem piedade. Mas vejo-me bruscamente de novo em mais um templo divino....Cataratas de águas limpidas, parecendo um qual paraiso, onde grandes poetas sonharam e deliciaram-se com os banhos amorosos de suas ninfas inspiradoras. Alguém dizia: "Obrigado, Meu Deus por teres criado isto"...desculpem-me mas eu direi:"Obrigado, ò Mãe, Criadora Máxima de tudo isto, Obrigado Natureza." Só me faltou mesmo, e direi em tom de um certo egoismo espiritual, as deusas abençoadas para dizer que abençoado estava para morrer e entrar em este paraiso incomum. Iguaçu foi descrito pelas palavras dos poetas, pelas letras dos ideólogos, mas vem-me à memória a pauta inconfundivel de Phillip Glass, que levou estas cataratas ao espoente máximo de melodicamente serem um local divino.
Não quero falar do regresso, pois fico-me na estranha memória de um tango, na leve brisa de um sol pintado de azul de fundo, na breve esperânça de retornar para orar... Afinal a vida tem destas coisas, estas drogas que nos apadrinham a mente de uma magia pura, e onde pensamos que afinal a vida pode ser mesmo perfeita...e é quando queremos. A vida é mesmo um ópio. Canto-vos um verso desse garnde poeta Miguel de Unamumo:
" Con sueños estás tejido,
corazón;
tu tela sueltra un gemido
al rasgarla la razón.

Cantaba Dios al tejerte;
su selar
era el cantar de la muerte,
el canto del despertar.

En tu envés puso pintada
creacion;
pintó en tu revés la nada,
retrato de su pasión."

1 comentário:

Anónimo disse...

Ambos sentimos uma imensidão de emoções, a companhia proporcionou a viagem de sonho.
Tenho ouvido a música, a tua descrição desse lugar é fantastica. Até breve Carlos, da amiga Lueji