" Quando Gregor Samsa despertou certa manhã, de um sonho agitado viu que se transformara, durante o sono, numa espécie monstruosa de insecto." Este é o inicio da "Metamorfose" de Franz Kafka. Ofereceram-mo hoje. Sinto que acordei de um sonho agitado, um sonho que durou um ano, que perdurou durante dias e noites, que me suou a pele durante horas e minutos, que me espantou a alma durante tempos irreais. Não sinto hoje, que tenha sido transformado num monstruoso insecto, mas sim em algo bem diferente. Sinto que o meu corpo foi descoberto por um leito enclausurado durante anos, e que acordou numa tormenta e dela despertou para uma luminosidade impar, para um caminho abençoado pelas gotas divinas da vida. Hoje recebi vários telefonemas, mensagens, abraços, muitos beijos, hoje também percebi que afinal o ano que passou não foi tão negro quanto puderia ter sentido, pois afinal estou vivo, estou bem vivo, e tive hoje a prova de estar mais rico do que há um ano atrás. Pensava que tinha perdido muito, mas ganhei. Ganhei na liberdade, na amizade, no amor, ganhei no sentido da orientação, ganhei no crescimento, na sabedoria, ganhei na vida, no estilo, na forma, no desenho. Ganhei amigos, familia, ganhei um tesouro jamais compensado por pequenas peças de joalharia comum, ganhei nos sorrisos, na sinceras risadas, na verdade, ganhei na honra e na bondade, ganhei na saude, no dia e na noite, ganhei no poder e no querer. Ganhei. Ganhei. Como se esta passagem fosse uma eterna busca de troféus, de vitórias...mas esta que eu alcancei foi uma daquelas especiais, daquelas que nos acorda e levanta do nada para o todo, que faz de nós mais sábios, que nos constroi uma estrutura de fortes pilares, para andarmos, sorridentes e corajosos, para enfrentarmos a imperfeita voz da escuridão humana.
Ontem escrevia que fechava uma página...hoje vos escrevo que essa página está fechada, não exterminada, pois teria de me anular, mas arquivada no sotão do tempo. Deixo memórias de uma gente matrimonialmente presa ao passado, deixo gente cheia de encruzilhadas mundanas e alheias, gente de poucos amores, de verdades adquiridas, gente de persupostos insuportáveis, de materialismos ambíguos, deixo alguém, deixo uns alguéns, deixo na lembrança momentos de prazeres nomadas, entranhados num coração de pétalas germinadas em perfumes de uma paixão volátel.
Mas passou, e agora caminho. "Quero dizer um adeus. Um daqueles que se diz para mais não voltar. Voltarmos seria destruirmo-nos, seria arruinarmo-nos, despedaçarmo-nos numa falésia de sentimentos escuros e de odores transformados. Quero dizer um adeus para fechar, enclausurar este passado que no espelho que me confronta a alma se apagar esses desenhos de memórias pintadas pelas mais horrendas cores do abismo. Vou cantar esse adeus. Vou soletrá-lo nas pétalas das flores e jogá-lo nos ventos do tempo, para que todos os escutem e saibam que eu não mais voltarei lá...ao passado. Apreendê-lo será apenas a forma de construir esse adeus. Sim, apreendê-lo para mais nunca dizer adeus." Virginia Wolf.
E tudo está dito. Passemos ao capítulo seguinte.

2 comentários:
Não conhecia este texto, mas faz-me todo o sentido. Só com alguma distância das coisas, podemos dar-nos conta de que tudo tinha de se passar exactamente assim, para crescermos, para sermos melhores. Beijo
Não conhecia o texto,contudo já o conhecia.
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