quarta-feira, janeiro 24, 2007

Falar do Aborto...porque SIM

Falar do aborto
Falo de um referendo. Falo de uma pergunta. Uma questão que encerra tantas questões em si mesma. Vejo este referendo, antes de mais, como uma guerra entre a Igreija, os conceitos mais conservadores deste nosso Portugal e a esquerda política. Estou triste por ver uma oportunidade da nossa sociedade conseguir, finalmente, reflectir dentro da sua própria consciência sobre um tema sensível, perder-se nos velhos confins de velhas disputas azedadas por lutas libertinas. O aborto é um assunto de pensamento, pensamento próprio. É um assunto interno de cada ser humano, e não uma obrigação de pensamento comum, de ideais, de crenças.
Há dias escutava preplexo ao comentário absurdo de um padre, que ameaçava os seus co-cidadãos a votarem no NÃO, com risco de serem punidos e excomungados pela paróquia... dias depois observo num jornal, a imposição do partido socialista, maioritário no governo, a todos os seus membros a votarem SIM. Bloco de esquerda quase chama de ignóbeis aqueles que não votarem SIM. O partido comunista... bem, penso que deles nem vale a pena falar, senão vou entrar num beco sem saída. As organizações ligadas à igreija defendem um NÃO obrigado, pela vida... ou pela consciência de defenderem algo que julgam ser o mais fácil, algo que as conforta quando hipocritamente entram num local sagrado e se benzem orando como gente defensora da vida.
Eu vou votar. Vou votar SIM.
Não porque seja gnóstico assumido, nem porque esteja de costas voltadas para as actuais consciências da igreija. Não porque seja de esquerda, sou mais liberal. Não porque pense como todos os que votam SIM. Voto SIM, porque penso que a lei actual é cínica. A lei actual disfarça uma quantidade de interesses. A lei actual despreza a humanização da situação. Sou a favor da vida sim. Sou humanista sim. Mas sou a favor de uma vida em que as condições mínimas em termos humanos devem estar salvaguardadas. Não sou a favor do nascimento pelas estatísticas globais de população. Não sou preconceituoso com os seres que apresentam deficiências no próprio feto. Não sou a favor de um aborto indiscriminado, via de contracepção, de uma aborto transformado em lugar comum na vida de uma mulher. Sou a favor da livre escolha, mas da escolha responsável.
Vou votar SIM num referendo marcado pelos interesses idealistas de uma sociedade cada vez mais prisioneira do seu próprio vazio.
Penso que o aborto é apenas o fim da discussão. O símbolo de prisão idealista é a ausência de vontade em discutir a raiz deste e de muitos problemas: a cultura, a mentalidade. Penso que vamos continuar outros abortos, outros referendos virão sobre assuntos de interesses, quer políticos, quer religiosos, mas continuar-se-á a voltar as costas à mentalidade, à cultura portuguesa que teima em desaparecer num falta de identidade própria...
Não queria deixar de realçar os poucos membros desta nossa sociedade que tem tido a coragem, a verdadeira, de exporem as suas idéias e de as discutir sobre este tema de uma forma desinteressada, com o único objectivo de esclarecer e responsabilizar o pensamento de cada um. Parabéns a todos eles.
Votem dia 11 de fevereiro. Mas votem pelo que acreditam.

3 comentários:

Anónimo disse...

O autor destas palavras obriga a reflectir sobre a questão: SIM ou NÂO?! Mas não basta pensar em Sim, ou Não, aliás, quem deveria responder nunca o poderá fazer, pois é pequeno e como muita gente pensa e afirma, ainda não pensa. Eu votaira SIM apenas para acabar com as politiquices à volta dos referendos, porque afinal esta é mais uma acção de promoção politica. Quantas pessoas vão votar? Quantas conhecem a profundeza da questão em causa? Ninguém responde a isto porque ninguém quer que toda a gente conheça a cultura à volta deste tema e à volta da politica deste assunto. NÂO, será a minha opção porque, desde cedo me responsabilizaram por tudo aquilo que faço. Se não quero ser pai/mãe, previno-me, apenas isso. Se não me importo de assumir este papel e o meu/minha parceiro/parceira não quer, previno-me. Se ambos temos consciência dos resultados, faço-o com paixão. Se o ser que for criado no interior do organismo materno correr riscos, a lei permite-me que defenda a mãe e que, inclusive salvaguarde o futuro, é possivel o aborto, ou melhor a interrupção voluntária. Em vez de promovermos mais um debate para meia dúzia de pessoas, na grande maioria ignorantes e egoistas, utilizem o dinheiro das campanhas para educar as crianças. Ao autor deste blog e a todos apenas deixo uma questão: na altura que nasceram, se os Vossos pais não tivessem condições ou amor, gostariam de ter feito parte apenas de uma ilusão?! Se assim fosse, como é que reflectiriam agora?!

Anónimo disse...

Boa noite: quem não acredita na vida?

Todos acabam por acreditar nela.Votarei naquilo em que acredito:na VIDA.

Abraço

Anónimo disse...

Interessante esta discussão. Eu sou um exemplo que podia não estar aqui e agora a escrever. Hironia a do destino (mais uma) que se eu não aqui estivesse, não me importava nada. Primeiro porque não tinha tido o desprazer de conhecer gente hipocrita, snob, desumana, falsa, entre tantos outros adjectivos. Claro que tambem conheceço gente interessante em muitos adjectivos.
Mas... e então??? O resultado de todos eles, bons ou maus é mesmo a morte.
Até a minha, só que não foi antecipada. Sofro por quem sofre, por quem passa fome, por quem tem doenças dolorosas deste seculo, por quem tem acidentes que os leva a estarem anos numa cama, sofro com os velhinhos despejados num lar sem condições e afectos, enfim Sofro com o mal humano que habita em nós.
Como diz o autor, "O aborto é um assunto de pensamento, pensamento próprio."
E não falem sobre questões monetarias, porque eu tambem pago as seringas de quem consome droga. E isso é o quê? E não me falem tambem na vida... o que é que cada um faz por este Planeta Terra? Querem os filhos vivos, com condições de saude, higiene e educação... mas poluem o ambiente!!! Que futuro é esse que querem dar aos Vossos filhos??? É o aqui e agora... e o amanhã??? Não interessa?
Eu só sei que este tema dava pano para mangas e muito mais. E se querem saber, eu nem sei se desta vez o acto de ir votar é positivo. Como pode alguem votar com tantas dúvidas, descrenças em que se faça algo justo. Muito menos é um acto civico, visto a discussão ser entre politicos e igreja.
Esclareçam-se, elucidem-se e não se esqueçam... Não sobrevivam.